sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Perfil de S. Paulo, Apóstolo, por Bento XVI



Jesus entrou na sua vida e transformou-o de perseguidor em apóstolo. Este encontro marcou o início da sua missão: Paulo não podia continuar a viver como antes; sentia-se agora investido pelo Senhor do encargo de anunciar o seu Evangelho na qualidade de apóstolo. É precisamente desta nova condição de vida, ou seja, de ser apóstolo de Cristo, que quero falar. Nós normalmente, seguindo os Evangelhos, identificamos os Doze com o título de apóstolos, para indicar aqueles que eram companheiros de vida e ouvintes dos ensinamentos de Jesus. Mas também Paulo se sente verdadeiro apóstolo e parece claro, portanto, que o conceito paulino de apostolado não se restringe ao grupo dos Doze.

Obviamente, Paulo sabe distinguir o seu próprio caso do daqueles “que tinham sido apóstolos anteriores” a ele (Gálatas 1, 17), reconhecendo-lhes um lugar totalmente especial na vida da Igreja. Contudo, como todos sabem, também São Paulo se considera como apóstolo em sentido estrito. É certo que, na época das origens cristãs, ninguém percorreu tantos quilómetros como ele, por terra e pelo mar, com o único objectivo de anunciar o Evangelho.

Segundo a concepção de São Paulo, o que é que faz que ele e os demais sejam apóstolos? Nas suas cartas aparecem três características principais que constituem o apóstolo. A primeira é “ter visto o Senhor” (cf. 1 Cor 9, 1), ou seja, ter tido com Ele um encontro determinante para a própria vida. Analogamente, na Carta aos Gálatas (cf. 1, 15-16), dirá que foi chamado, quase seleccionado, por graça de Deus, com a revelação do seu Filho frente ao anúncio aos pagãos. Em definitivo, é o Senhor que constitui o apóstolo, não a própria presunção. O apóstolo não se faz a si mesmo, mas o Senhor é que o faz; portanto ele precisa de se referir constantemente ao Senhor. Não é por acaso que Paulo diz ser “apóstolo por vocação” (Rm 1,1), ou seja, “não da parte dos homens nem por mediação de homem algum, mas por Jesus Cristo e Deus Pai” (Gl 1,1). Esta é a característica: ter visto o Senhor, ter sido chamado por Ele.

A segunda característica é a de “ter sido enviado”. O termo grego apóstolos significa precisamente “enviado, mandado”, ou seja, embaixador e portador de uma mensagem; deve actuar, portanto, como encarregado e representante de um mandante. Por isso Paulo define-se como “apóstolo de Jesus Cristo” (1 Cor 1, 1; 2 Cor 1,1), ou seja, delegado seu, posto totalmente ao seu serviço, até ao ponto de chamar-se “servo de Jesus Cristo” (Rm 1,1). Mais uma vez aparece em primeiro plano a ideia de uma iniciativa de outro, a de Deus em Jesus Cristo, à qual se está plenamente obrigado; mas sobretudo sublinha o facto de que se recebeu uma missão da parte d’Ele que é preciso cumprir em seu nome, pondo absolutamente em segundo plano qualquer interesse pessoal.

O terceiro requisito é o exercício do “anúncio do Evangelho”, com a consequente fundação de igrejas. Por conseguinte “Apóstolo” não é e não pode ser um título honorífico, mas empenha concreta e dramaticamente a existência do sujeito interessado. Na 1ª Carta aos Coríntios, Paulo exclama: “Não sou eu apóstolo? Acaso não vi Jesus, Senhor nosso? Não sois vós minha obra no Senhor?” (9, 1). Analogamente, na 2ª Carta aos Coríntios, afirma: “Vós sois a nossa carta..., sois uma carta de Cristo, redigida por ministério nosso, escrita não com tinta, mas com o Espírito de Deus vivo” (3, 2-3).

Excerto retirado do texto da Audiência Geral de 10.09.2008

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