A pouco mais de
três meses (13 de março de 2013) de ter sido o escolhido, Jorge Mario Bergoglio
que começou por surpreender logo na escolha do nome - Francisco nunca antes
tinha sido escolhido por um Papa e apelava à pobreza e à simplicidade, numa
homenagem a Francisco de Assis e a Francisco Xavier – consolida a imagem de
homem simples e de pastor próximo do seu povo.
Pelo seu
interesse, deixamos aqui uma entrevista (TVI24) a Andrea Tornielli, vaticanista
e autor da biografia do Papa Francisco. Tornielli antevê mudanças na pastoral
da Igreja, mudanças que Francisco imporá pelo próprio exemplo.
Como
definiria a personalidade do Papa Francisco?
Andrea
Tornielli - É uma pessoa muito humilde e profundamente
espiritual. Cumpre uma das tarefas de ser Bispo, de ser pastor: estar perto das
pessoas. Repare que quando faz as audiências na Praça de São Pedro parece não
ter nada melhor para fazer do que estar com as pessoas. Acredito que ele
realmente pensa que não há nada melhor para fazer do que estar junto das
pessoas.
João
Paulo II também era um pouco assim...
AT
-
Sim, mas agora percebe-se que está entre as pessoas, a beijar todas as
crianças. Percebe-se que é um contacto que agrada às pessoas, mas ele também.
Parece que não fez mais nada a vida inteira.
Esta
proximidade não poderá trazer problemas de segurança?
AT
-
É claro que sim, mas temos que nos lembrar que o Papa não é um chefe de Estado,
não é um rei. Não é como o Presidente Obama. É um bispo. Não pode não ter este
contacto com as pessoas. E acredito que lhe agrada essa responsabilidade do
contacto com as pessoas, independentemente do risco de atentados. A Obama podem
isolá-lo. Ao Papa não.
Bento
XVI estava um pouco mais resguardado...
AT
-
Sim, mas devo dizer que foi uma estrutura, uma enturage que o convenceu
a ter essa atitude. A ele também lhe agradava esse contacto, apesar de ser mais
reservado. Mas claro que com este Papa operou-se uma mudança muito grande no
que toca a esta matéria.
Que
outras mudanças se operaram no seio da Igreja Católica com esta nomeação?
AT
-
A maneira de predicar, de dizer homilias, é muito mais simples. Ser simples não
significa ser banal ou ser superficial. É simples, mas profundo. Francisco
acorda todos os dias às 04h30 e reza e medita por duas horas sobre as
escrituras. Quando vai proferir as homilias, mesmo nas missas privadas na Casa
de Santa Marta, não é extemporâneo. Não diz simplesmente o que lhe vai na
cabeça naquele momento. São coisas que não estão escritas em nenhum texto, mas
sobre as quais ele meditou durante mais de duas horas. Acaba por ter mensagens
muito simples, mas com muito impacto.
Além
disso, destaca-se também o facto de estar a tomar decisões, sobre a reforma da
Curia, sobre o Banco do Vaticano. É um homem que sabe decidir.
E
decide pela própria cabeça...
AT
-
Absolutamente. Tentaram convencê-lo a viver no apartamento papal no Palácio
Apostólico e ele não quis. Prefere a Casa de Santa Marta porque aí há gente,
pode comer à mesa com outras pessoas, falar com outras pessoas... Nem as
questões de segurança ou de conveniência o convenceram. Isto prova que o que
quer fazer faz e decide pela própria cabeça.
Tendo
em conta estes primeiros meses de pontificado, o que podemos predizer para o
futuro da Igreja?
AT
-
Não sei. Mas creio que esta chamada de atenção para a pobreza, esta
simplicidade e esta proximidade com os pobres é algo que terá de ter consequências.
Penso por exemplo que as estruturas e a burocracia tenderão a amenizar.
Claro
que o Papa vai reformar a Cúria, mas antes de reformar as estruturas, reforçará
a proximidade com as pessoas. E os padres e os bispos terão de ver nele esse
exemplo. Porque os fiéis tenderão a fazer comparações: se vês o Papa que não
gosta de um carro grande, mas prefere este contacto direto, o que acontecerá se
tens um padre que atua como um pequeno rei? Os pastores, os padres, os bispos e
os cardeais terão de auto-regular-se a este exemplo que é o do Papa.
E
podemos esperar mudanças de funcionamento mais profundas, como mulheres a
presidir eucaristias, por exemplo?
AT
-
Isso creio que não. É uma reforma doutrinal e clerical. Creio que é necessária
uma valorização das mulheres na Igreja e na vida da Igreja, mas é fundamental
mesmo é uma confiança maior nos laicos, uma «desclericalização».
Outra
coisa é uma proximidade maior à questão dos recasados. Isso afeta diretamente
as pessoas. E a Igreja tem de facilitar a fé, mais do que regulá-la. Creio que
em temas como este, haverá uma atitude pastoral diferente.
É
apontada também a Jorge Bergoglio uma certa atitude conservadora, nomeadamente
em relação à homossexualidade. Esse conservadorismo é real ou apenas um mito?
AT
-
Creio que é um mito. Claro que é um homem que gosta da religiosidade
tradicional. Gosta da devoção popular aos santos, por exemplo. Mas isso faz
parte da sua simplicidade também.
Nas
suas homilias, é capaz e citar a própria avó. Cita uma fé popular, próxima das
pessoas. Nesse sentido, podemos dizer que é tradicional. Mas é uma tradição
popular e não intelectual.
Ele
surpreendeu ou estava-se à espera desta simplicidade?
AT
-
A mim, o que mais me surpreendeu (eu que o conhecia bem, mas de um contacto
interpessoal, mas não lhe conhecia o contacto com muitas pessoas) é a total
naturalidade com que fala com os fiéis. Fala de maneira muito simples e
profunda e é capaz de transmitir mensagens que as pessoas entende. Quando ele
falou do Perdão e disse que Deus não se cansou de nos perdoar, mas fomos nós
que nos cansámos de pedir perdão, provocou um movimento. Muitas pessoas
regressaram à Igreja e ao sacramento da confissão depois de ouvir esta
mensagem. Bento XVI disse coisas extraordinárias sobre o Perdão. Mas em
Francisco, veem-se 20 anos de experiência como Bispo e de proximidade com as
pessoas.
As
acusações que lhe foram feitas de proximidade à ditadura argentina, por
exemplo, enfraqueceram-no de alguma forma?
AT
-
São acusações completamente falsas e isso foi provado em tribunal. E não foi um
tribunal a favor da Igreja. O avô de Bergoglio era totalmente anti-fascista e a
própria irmã de Bergoglio questionou como era possível dizer que o irmão era
fascista se vêm de uma família completamente anti-fascista.
Essas acusações não baixaram de forma alguma a sua popularidade. Não provocaram impacto nas pessoas.
Essas acusações não baixaram de forma alguma a sua popularidade. Não provocaram impacto nas pessoas.
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