quarta-feira, 19 de junho de 2013

Entrevista a Andrea Tornielli



A pouco mais de três meses (13 de março de 2013) de ter sido o escolhido, Jorge Mario Bergoglio que começou por surpreender logo na escolha do nome - Francisco nunca antes tinha sido escolhido por um Papa e apelava à pobreza e à simplicidade, numa homenagem a Francisco de Assis e a Francisco Xavier – consolida a imagem de homem simples e de pastor próximo do seu povo.
Pelo seu interesse, deixamos aqui uma entrevista (TVI24) a Andrea Tornielli, vaticanista e autor da biografia do Papa Francisco. Tornielli antevê mudanças na pastoral da Igreja, mudanças que Francisco imporá pelo próprio exemplo.

Como definiria a personalidade do Papa Francisco?
Andrea Tornielli - É uma pessoa muito humilde e profundamente espiritual. Cumpre uma das tarefas de ser Bispo, de ser pastor: estar perto das pessoas. Repare que quando faz as audiências na Praça de São Pedro parece não ter nada melhor para fazer do que estar com as pessoas. Acredito que ele realmente pensa que não há nada melhor para fazer do que estar junto das pessoas.

João Paulo II também era um pouco assim...
AT - Sim, mas agora percebe-se que está entre as pessoas, a beijar todas as crianças. Percebe-se que é um contacto que agrada às pessoas, mas ele também. Parece que não fez mais nada a vida inteira.

Esta proximidade não poderá trazer problemas de segurança?
AT - É claro que sim, mas temos que nos lembrar que o Papa não é um chefe de Estado, não é um rei. Não é como o Presidente Obama. É um bispo. Não pode não ter este contacto com as pessoas. E acredito que lhe agrada essa responsabilidade do contacto com as pessoas, independentemente do risco de atentados. A Obama podem isolá-lo. Ao Papa não.

Bento XVI estava um pouco mais resguardado...
AT - Sim, mas devo dizer que foi uma estrutura, uma enturage que o convenceu a ter essa atitude. A ele também lhe agradava esse contacto, apesar de ser mais reservado. Mas claro que com este Papa operou-se uma mudança muito grande no que toca a esta matéria.
Que outras mudanças se operaram no seio da Igreja Católica com esta nomeação?
AT - A maneira de predicar, de dizer homilias, é muito mais simples. Ser simples não significa ser banal ou ser superficial. É simples, mas profundo. Francisco acorda todos os dias às 04h30 e reza e medita por duas horas sobre as escrituras. Quando vai proferir as homilias, mesmo nas missas privadas na Casa de Santa Marta, não é extemporâneo. Não diz simplesmente o que lhe vai na cabeça naquele momento. São coisas que não estão escritas em nenhum texto, mas sobre as quais ele meditou durante mais de duas horas. Acaba por ter mensagens muito simples, mas com muito impacto.
Além disso, destaca-se também o facto de estar a tomar decisões, sobre a reforma da Curia, sobre o Banco do Vaticano. É um homem que sabe decidir.

E decide pela própria cabeça...
AT - Absolutamente. Tentaram convencê-lo a viver no apartamento papal no Palácio Apostólico e ele não quis. Prefere a Casa de Santa Marta porque aí há gente, pode comer à mesa com outras pessoas, falar com outras pessoas... Nem as questões de segurança ou de conveniência o convenceram. Isto prova que o que quer fazer faz e decide pela própria cabeça.

Tendo em conta estes primeiros meses de pontificado, o que podemos predizer para o futuro da Igreja?
AT - Não sei. Mas creio que esta chamada de atenção para a pobreza, esta simplicidade e esta proximidade com os pobres é algo que terá de ter consequências. Penso por exemplo que as estruturas e a burocracia tenderão a amenizar.
Claro que o Papa vai reformar a Cúria, mas antes de reformar as estruturas, reforçará a proximidade com as pessoas. E os padres e os bispos terão de ver nele esse exemplo. Porque os fiéis tenderão a fazer comparações: se vês o Papa que não gosta de um carro grande, mas prefere este contacto direto, o que acontecerá se tens um padre que atua como um pequeno rei? Os pastores, os padres, os bispos e os cardeais terão de auto-regular-se a este exemplo que é o do Papa.

E podemos esperar mudanças de funcionamento mais profundas, como mulheres a presidir eucaristias, por exemplo?
AT - Isso creio que não. É uma reforma doutrinal e clerical. Creio que é necessária uma valorização das mulheres na Igreja e na vida da Igreja, mas é fundamental mesmo é uma confiança maior nos laicos, uma «desclericalização».
Outra coisa é uma proximidade maior à questão dos recasados. Isso afeta diretamente as pessoas. E a Igreja tem de facilitar a fé, mais do que regulá-la. Creio que em temas como este, haverá uma atitude pastoral diferente.

É apontada também a Jorge Bergoglio uma certa atitude conservadora, nomeadamente em relação à homossexualidade. Esse conservadorismo é real ou apenas um mito?
AT - Creio que é um mito. Claro que é um homem que gosta da religiosidade tradicional. Gosta da devoção popular aos santos, por exemplo. Mas isso faz parte da sua simplicidade também.
Nas suas homilias, é capaz e citar a própria avó. Cita uma fé popular, próxima das pessoas. Nesse sentido, podemos dizer que é tradicional. Mas é uma tradição popular e não intelectual.

Ele surpreendeu ou estava-se à espera desta simplicidade?
AT - A mim, o que mais me surpreendeu (eu que o conhecia bem, mas de um contacto interpessoal, mas não lhe conhecia o contacto com muitas pessoas) é a total naturalidade com que fala com os fiéis. Fala de maneira muito simples e profunda e é capaz de transmitir mensagens que as pessoas entende. Quando ele falou do Perdão e disse que Deus não se cansou de nos perdoar, mas fomos nós que nos cansámos de pedir perdão, provocou um movimento. Muitas pessoas regressaram à Igreja e ao sacramento da confissão depois de ouvir esta mensagem. Bento XVI disse coisas extraordinárias sobre o Perdão. Mas em Francisco, veem-se 20 anos de experiência como Bispo e de proximidade com as pessoas.

As acusações que lhe foram feitas de proximidade à ditadura argentina, por exemplo, enfraqueceram-no de alguma forma?
AT - São acusações completamente falsas e isso foi provado em tribunal. E não foi um tribunal a favor da Igreja. O avô de Bergoglio era totalmente anti-fascista e a própria irmã de Bergoglio questionou como era possível dizer que o irmão era fascista se vêm de uma família completamente anti-fascista.
Essas acusações não baixaram de forma alguma a sua popularidade. Não provocaram impacto nas pessoas.

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